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Carta Vipassana
Acabo de voltar de um retiro de 10 dias para aprender uma técnica de meditação chamada Vipássana, onde fiquei em silêncio, em regime de monastério, sem poder usar qualquer tipo de comunicação para com os outros participantes, nem mesmo através do olhar... foi ótimo, surpreendente, pois assim pude entrar em contato comigo de uma forma mais profunda. Como já tinham me falado antes, ficar calada foi a parte mais fácil do processo, sendo que o mais difícil foi lidar com a tagarelice da mente que ia e voltava a tantos lugares, falava com tantas pessoas e fazia tantas coisas.

 

 

 

 

 

 

por Claudia Sabbag

Com o passar dos dias, compreendi, senti literalmente na pele, uma coisa que falava pros meus alunos de Yoga e consequentemente pra mim: a mente indisciplinada está praticamente o tempo todo ansiando, imaginando, programando o que vai fazer, seja negativo ou positivo (futuro, não aconteceu) ou então remoendo sentimentos negativos de raiva, mágoa, ressentimento, etc. ou apegada às lembranças e sensações agradáveis (passado, já foi), de forma que raramente está no presente, onde as coisas realmente acontecem, onde podemos realizar e ser realizados, usar nossa energia mental pra nos construir, pois como diz o poeta: “ o presente é a única coisa que não tem fim”.

Vipássana (fala-se Vipáchana) significa “ver as coisas como realmente são”. É uma técnica trazida por Sidarta Gautama, o Buda, um príncipe indiano que abriu mão de todas as regalias para descobrir o porquê das misérias existenciais e sofrimento do ser humano, como sair da ilusão e ignorância, e que após se “iluminar”, ou seja, liberar-se de todos os condicionamentos aos 35 anos de idade, viveu mais 45 anos por amor às pessoas, servindo e passando a técnica adiante. Na Índia, com o passar do tempo, a técnica foi perdida em sua pureza, misturada com outras práticas, mas num país vizinho, a Birmânia, foi preservada até os dias de hoje, de Mestre pra discípulo.
S. N. Goenka, hoje com 80 anos, um velhinho muito fofo que já foi um rico homem de negócios, com escritórios em várias partes do mundo, hoje é o responsável pela propagação desta técnica pelo mundo. O interessante é que o que o levou a entrar em contato com Vipássana foi uma enxaqueca que não tinha médico no mundo que curasse e que já o estava levando a viciar-se em morfina para aliviar a dor. Após procurar em vários países todas as opções possíveis na medicina sem encontrar resultado, o que ele diz ter sido um “presente de Deus”, encontrou em seu próprio país, a Birmânia, através de um amigo que o aconselhou a procurar aprender essa técnica de meditação que o faria acalmar e dominar a mente ao invés de ser dominado por ela. A enxaqueca acabou. Hoje ele e seus professores assistentes transmitem esta técnica maravilhosa a todos os que desejam viver em paz e em harmonia consigo, independente de religião ou qual seja a crença.


A técnica é bem simples, pois trabalha-se observando as sensações através da “moldura do corpo”, buscando compreender a impermanência tanto das sensações desagradáveis (não criando aversão) quanto das agradáveis (não criando apego, cobiça) e com isto conseguindo ficar cada vez mais equânime, equilibrado diante também das situações da vida. Gostei muito de encontrar algo assim pois, apesar que já ter experimentado outras técnicas, como sou um tanto mental e visual ainda não tinha acessado o coração, sentimento, de uma forma tão real e verdadeira.

No começo foi sofrido, confesso, quase desesperador ficar observando a mente daquela maneira, mas como diz o Dalai Lama: “a dor é inerente à vida, mas o sofrimento é opcional”, por isso fiquei ali várias horas parada, imóvel fisicamente, observando, observando as dores, medos, pânico, etc., buscando observar sem aversão (ter equanimidade...) e ao mesmo tempo as sensações boas, de prazer, não apegar a elas (mais uma vez equanimidade...), enquanto a mente ia e voltava, custando a observar. Tarefa difícil. No sexto dia entrei em contato mais profundo e pude ver de perto a triste realidade do estado mental em que me encontrava até então, mas foi uma “tristeza boa”, benéfica, poder ver as coisas como são e não como eu gostaria ou imaginava que fossem. Claro que, depois de 10 dias, percebi que as experiências, assim como os seres, diferem-se de acordo com o que cada um tem a aprender.
O sétimo dia , como um arco-íris, ficou colorido com a presença mais forte de Deus em minha vida, pois mesmo não havendo sectarismo nos ensinamentos, conectei-me de uma forma mais profunda com uma Consciência maior. Agora, após 03 dias de conclusão do curso, sinto mais concentração mental, energia e sensibilidade. Fiz um compromisso comigo de, através de uma firme determinação, meditar todos os dias e “dar uma chance” a essa técnica para ver com mais clareza o que ela é capaz de me proporcionar, pois através da prática constante e disciplinada sinto que posso ter cada vez mais equilíbrio, paz e harmonia pra acessar, através da vivência e experiência da realidade, a sabedoria verdadeira que existe dentro de cada um de nós.

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