Com o passar dos dias, compreendi, senti literalmente na pele, uma coisa que falava pros meus alunos de Yoga e consequentemente pra mim: a mente indisciplinada está praticamente o tempo todo ansiando, imaginando, programando o que vai fazer, seja negativo ou positivo (futuro, não aconteceu) ou então remoendo sentimentos negativos de raiva, mágoa, ressentimento, etc. ou apegada às lembranças e sensações agradáveis (passado, já foi), de forma que raramente está no presente, onde as coisas realmente acontecem, onde podemos realizar e ser realizados, usar nossa energia mental pra nos construir, pois como diz o poeta: “ o presente é a única coisa que não tem fim”.
Vipássana (fala-se Vipáchana)
significa “ver as coisas como realmente são”. É
uma técnica trazida por Sidarta Gautama, o Buda, um príncipe
indiano que abriu mão de todas as regalias para descobrir o porquê
das misérias existenciais e sofrimento do ser humano, como sair da
ilusão e ignorância, e que após se “iluminar”,
ou seja, liberar-se de todos os condicionamentos aos 35 anos de idade, viveu
mais 45 anos por amor às pessoas, servindo e passando a técnica
adiante. Na Índia, com o passar do tempo, a técnica foi perdida
em sua pureza, misturada com outras práticas, mas num país vizinho,
a Birmânia, foi preservada até os dias de hoje, de Mestre pra
discípulo.
S. N. Goenka, hoje com 80 anos, um velhinho muito fofo que já foi um
rico homem de negócios, com escritórios em várias partes
do mundo, hoje é o responsável pela propagação
desta técnica pelo mundo. O interessante é que o que o levou
a entrar em contato com Vipássana foi uma enxaqueca que não
tinha médico no mundo que curasse e que já o estava levando
a viciar-se em morfina para aliviar a dor. Após procurar em vários
países todas as opções possíveis na medicina sem
encontrar resultado, o que ele diz ter sido um “presente de Deus”,
encontrou em seu próprio país, a Birmânia, através
de um amigo que o aconselhou a procurar aprender essa técnica de meditação
que o faria acalmar e dominar a mente ao invés de ser dominado por
ela. A enxaqueca acabou. Hoje ele e seus professores assistentes transmitem
esta técnica maravilhosa a todos os que desejam viver em paz e em harmonia
consigo, independente de religião ou qual seja a crença.
A técnica é bem simples, pois trabalha-se observando as sensações
através da “moldura do corpo”, buscando compreender a impermanência
tanto das sensações desagradáveis (não criando
aversão) quanto das agradáveis (não criando apego, cobiça)
e com isto conseguindo ficar cada vez mais equânime, equilibrado diante
também das situações da vida. Gostei muito de encontrar
algo assim pois, apesar que já ter experimentado outras técnicas,
como sou um tanto mental e visual ainda não tinha acessado o coração,
sentimento, de uma forma tão real e verdadeira.
No começo foi sofrido, confesso,
quase desesperador ficar observando a mente daquela maneira, mas como diz
o Dalai Lama: “a dor é inerente à vida, mas o sofrimento
é opcional”, por isso fiquei ali várias horas parada,
imóvel fisicamente, observando, observando as dores, medos, pânico,
etc., buscando observar sem aversão (ter equanimidade...) e ao mesmo
tempo as sensações boas, de prazer, não apegar a elas
(mais uma vez equanimidade...), enquanto a mente ia e voltava, custando a
observar. Tarefa difícil. No sexto dia entrei em contato mais profundo
e pude ver de perto a triste realidade do estado mental em que me encontrava
até então, mas foi uma “tristeza boa”, benéfica,
poder ver as coisas como são e não como eu gostaria ou imaginava
que fossem. Claro que, depois de 10 dias, percebi que as experiências,
assim como os seres, diferem-se de acordo com o que cada um tem a aprender.
O sétimo dia , como um arco-íris, ficou colorido com a presença
mais forte de Deus em minha vida, pois mesmo não havendo sectarismo
nos ensinamentos, conectei-me de uma forma mais profunda com uma Consciência
maior. Agora, após 03 dias de conclusão do curso, sinto mais
concentração mental, energia e sensibilidade. Fiz um compromisso
comigo de, através de uma firme determinação, meditar
todos os dias e “dar uma chance” a essa técnica para ver
com mais clareza o que ela é capaz de me proporcionar, pois através
da prática constante e disciplinada sinto que posso ter cada vez mais
equilíbrio, paz e harmonia pra acessar, através da vivência
e experiência da realidade, a sabedoria verdadeira que existe dentro
de cada um de nós.

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